quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Um descanso para o audiovisual.

Homem assiste a nickelodeon.
Você já reparou que hoje todo mundo produz e publica audiovisual?

A coisa mais comum é a pessoa sacar o celular para filmar uma situação qualquer e publicar instantaneamente na internet. Arrisco dizer que adolescentes preferem produzir filminhos a escrever uma redação.

Isto é fruto de um processo de democratização nos meios de produção e circulação que aconteceu de forma acelerada nos últimos 30 anos.

Se por um lado esta democratização é uma evolução, por outro, traz algumas consequências não tão boas. Me explico.

Nos tempos em que fazer um filme era um processo caro, difícil e demorado, a produção era mais restrita e, por consequência, mais criteriosa. Havia uma seleção e preparação mais cuidadosa do que seria filmado. Este primeiro filtro na produção fazia uma "curadoria natural" do que chegava até o espectador. Além disso, havia pouca coisa para assistir e o que havia era valorizado. Basta pensar que, no início do cinema, as pessoas colocavam moedinhas nos nickelodeons (antigas máquinas que rodavam filmes curtos, como na foto acima) só para ver a novidade das imagens em movimento, como se fossem fotos animadas. Mais adiante, a chegada de um novo filme era um verdadeiro evento, pois finalmente havia algo diferente para ser assistido.

O que vivemos hoje é uma banalização do audiovisual. Tudo é filmado, tudo é publicado e pode ser assistido em tudo que é lugar. O lado ruim disto é que não existe um "descanso" entre as obras audiovisuais. Entre um grande filme e outro grande filme, existem milhares (se não milhões) de filmes menores para serem assistidos e, até mesmo quando você estiver olhando para o nada, poderá existir lá uma tela te entupindo de imagens em movimento.

Conclusão: quando você se dispõe a assistir um filme, já está saturado da linguagem e, sem dúvida, extrai um prazer menor desta experiência. Uma pena...

Para quem produz filmes profissionalmente, resta este grande desafio: fazer algo fresco e relevante neste ambiente saturado e poluído.

Para quem assiste, não há muito o que fazer. Fechar os olhos e ser mais seletivo, talvez.

2 comentários:

  1. Sei não, desconfio um pouco dessa "curadoria natural", afinal o que se observou com ela foi a seleção de projetos sempre iguais, com a mesma fórmula, feita por grandes indústrias que, no fim, baseavam-se numa suposição do gosto popular, suposição esta obtida de pesquisas de opinião, análises de mercado, aliada aos interesses próprios dos produtos (ideológicos, mercadológicos, políticos, etc.). Além disso, a repetição de estilos e métodos os tornou hegemônicos na própria definição de “bom filme”. Enfim, nada melhor que o "gosto popular" se imponha de fato, por meio dessa miríade de imagens. Um bom filme jamais perderá espaço, mesmo com a proliferação descontrolada de "produções". Seria como afirmar que é impossível desfrutar de um bom livro, depois que a infeliz da bic popularizou a esferográfica e a modernidade concluiu que era benéfico alfabetizar as massas, hehehehe... Até porque por sorte há tantos gostos como produções.
    Abs!

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  2. A mesma discussão permeia a literatura. Eu concordo com o Javier: apesar de ser difícil nadar e, mais ainda, navegar na inundação de produtos culturais (audiovisuais, literários ou quaisquer outros), pelo menos se colocam meios de produção nas mãos de todos. Enquanto isso se concentrava no poder de uma elite (seja econômica, seja cultural), os produtos saíam no formato determinado por eles. O problema para o espectador é achar critérios para filtrar tudo isso, já que não dá pra ler, ver e ouvir tudo o que foi produzido no mundo.

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